Referência internacional do petróleo ultrapassou a barreira dos US$ 100 nesta quarta-feira (9), enquanto conflitos aumentam os riscos para o abastecimento mundial.
O petróleo voltou a ultrapassar uma das marcas mais acompanhadas pelo mercado internacional nesta quarta-feira, 9 de setembro de 2026. Os contratos futuros do Brent superaram US$ 100 por barril pela primeira vez desde 24 de julho, refletindo uma nova escalada dos conflitos no Oriente Médio e, principalmente, o temor de que ataques a navios e instalações energéticas reduzam ainda mais o fluxo de petróleo da região.
Por volta das 13h15 GMT, o Brent para o primeiro mês avançava 2,8%, negociado a US$ 100,66 por barril, depois de alcançar US$ 100,95 durante a sessão. Nos Estados Unidos, o West Texas Intermediate (WTI) subia cerca de 3%, para US$ 95,77, atingindo seu maior nível desde o início de junho.
A preocupação do mercado não está concentrada apenas na cotação do barril. O Estreito de Ormuz, uma das rotas energéticas mais importantes do planeta, voltou a registrar forte redução do tráfego, enquanto ataques também colocam em risco alternativas de transporte pelo Mar Vermelho. Esse cenário aumenta a incerteza sobre a quantidade de petróleo que chegará aos consumidores nos próximos meses.
Para o Brasil, uma alta prolongada do petróleo internacional pode ter consequências que vão além das ações de empresas petrolíferas. Gasolina, diesel, custos de transporte, fretes e inflação podem sentir os efeitos caso a pressão internacional permaneça por um período prolongado, embora uma valorização do Brent não signifique automaticamente um reajuste imediato dos combustíveis nos postos brasileiros.
Por que o petróleo Brent voltou a superar US$ 100
A principal explicação está no aumento dos riscos de interrupção da oferta no Oriente Médio. A escalada recente inclui ataques envolvendo forças dos Estados Unidos e do Irã, além de ofensivas dos houthis, alinhados a Teerã, contra instalações energéticas sauditas. Navios petroleiros também passaram a ser atingidos, aumentando a percepção de risco para empresas responsáveis pelo transporte de petróleo.
O mercado está especialmente atento ao Estreito de Ormuz. Antes da retomada dos confrontos no fim de agosto, aproximadamente 8 milhões a 9 milhões de barris por dia estavam passando pela rota, segundo dados citados pela Reuters. Mais recentemente, esse fluxo caiu para menos de 2 milhões de barris diários, mostrando a dimensão da interrupção provocada pela crise.
Dados preliminares da Kpler também indicaram apenas seis embarcações de commodities atravessando o estreito na terça-feira, abaixo das nove registradas no dia anterior e da média de aproximadamente 12 embarcações dos dez dias anteriores. Historicamente, a região possui enorme importância para o comércio internacional de petróleo e gás natural.
O problema é que o Mar Vermelho, utilizado como alternativa para parte das exportações, também enfrenta riscos. Ataques contra instalações sauditas aumentaram a possibilidade de uma expansão regional do conflito, levando investidores a incorporar um prêmio maior de risco aos preços do petróleo.
Gasolina e diesel já sentem pressão no mercado internacional
A situação dos combustíveis refinados é ainda mais delicada. Enquanto os contratos futuros do Brent voltaram agora à região dos US$ 100, partes do mercado físico de petróleo e derivados já negociavam acima desse patamar. O chamado Dated Brent, referência para aproximadamente dois terços do petróleo mundial, estava acima de US$ 100 desde 3 de setembro.
No mercado europeu, o diesel chegou a ser negociado perto de US$ 199 por barril nesta quarta-feira. As margens de refino do combustível alcançaram níveis historicamente elevados, chegando a US$ 78,90 por barril em 1º de setembro. Para comparação, a média havia sido de aproximadamente US$ 21 em 2025.
A gasolina europeia também permanece acima de US$ 100 por barril desde março. Isso mostra que o choque atual não envolve somente a disponibilidade de petróleo bruto. Restrições no funcionamento das refinarias, menores exportações provenientes de regiões estratégicas e dificuldades logísticas estão deixando o mercado de combustíveis particularmente apertado.
Esse movimento preocupa governos porque gasolina e diesel possuem efeito disseminado sobre a economia. O diesel influencia diretamente transporte rodoviário, máquinas agrícolas e logística, enquanto a gasolina afeta o orçamento das famílias. Quando combustíveis permanecem caros durante períodos prolongados, o impacto pode aparecer também nos preços de alimentos e outros produtos transportados por longas distâncias.
O que a alta do petróleo pode significar para o Brasil
Para o consumidor brasileiro, superar US$ 100 não significa que a gasolina terá aumento automático na mesma proporção. O preço final dos combustíveis depende de uma combinação de fatores, incluindo valores praticados pelas refinarias, câmbio, impostos, margens de distribuição e revenda e composição dos produtos comercializados no país.
Ainda assim, uma valorização persistente do petróleo aumenta a pressão econômica sobre toda a cadeia. Quanto maior a diferença entre preços domésticos e internacionais, maior tende a ser a atenção do mercado sobre decisões comerciais das refinarias e sobre a capacidade dos importadores de competir no abastecimento nacional.
Outro risco está na inflação. O petróleo é utilizado não somente para produzir combustíveis, mas também participa direta ou indiretamente de diversas cadeias industriais. Custos maiores de diesel podem encarecer fretes e pressionar produtos transportados por rodovias, algo especialmente relevante no Brasil devido à elevada dependência desse modal.
O cenário internacional, portanto, será determinante. Se o fluxo pelo Estreito de Ormuz se recuperar e os ataques diminuírem, parte do prêmio de risco incorporado às cotações poderá desaparecer. Se a crise continuar afetando navios, refinarias e instalações energéticas, o mercado poderá permanecer pressionado por mais tempo.
A volta do Brent para acima de US$ 100 funciona como um alerta de que o risco geopolítico voltou ao centro do mercado energético mundial. Para o brasileiro, o principal ponto a acompanhar agora não é apenas o valor alcançado pelo barril em um único dia, mas por quanto tempo esse nível permanecerá elevado. Uma crise prolongada poderá aumentar a pressão sobre combustíveis, transportes e inflação, enquanto uma normalização das rotas de abastecimento poderia aliviar os preços internacionais.