Eni amplia investimentos em fusão nuclear e pretende levar a tecnologia à escala comercial na Europa no início da década de 2040.
Eni transforma fusão nuclear em aposta estratégica para o futuro
A italiana Eni, uma das grandes companhias globais de petróleo e gás, está ampliando sua aposta em uma tecnologia que pode alterar profundamente o mercado energético nas próximas décadas: a fusão nuclear por confinamento magnético. A empresa considera que o desenvolvimento da fusão deixou de ser apenas um tema de pesquisa científica para começar a assumir características de uma futura indústria. Em entrevista publicada pelo Financial Times em 23 de agosto, Francesca Ferrazza, responsável pelas iniciativas de fusão magnética da Eni, afirmou que a companhia pretende estar entre as primeiras empresas tradicionais de energia a participar da comercialização da tecnologia na Europa. (Financial Times)
A comparação com uma “refinaria do futuro” está ligada principalmente à estratégia industrial da companhia. Hoje, refinarias transformam matérias-primas fósseis em produtos energéticos; em um futuro baseado na fusão, parte das competências industriais da Eni poderia ser direcionada ao processamento e reaproveitamento do combustível utilizado nos reatores. A empresa pretende aproveitar décadas de experiência com hidrogênio e hidrocarbonetos para trabalhar no chamado ciclo de combustível da fusão, incluindo recuperação, separação e purificação de deutério e trítio. (Financial Times)
Parceria com startup americana tenta levar fusão ao mercado
O centro dessa estratégia é a Commonwealth Fusion Systems (CFS), startup surgida do Massachusetts Institute of Technology e apoiada pela Eni desde 2018. A CFS trabalha no desenvolvimento de reatores que utilizam campos magnéticos extremamente intensos para confinar plasma em temperaturas elevadíssimas. A companhia italiana afirma que a tecnologia utiliza ímãs supercondutores de alta temperatura e que testes anteriores alcançaram campos magnéticos de 20 teslas, um dos avanços considerados importantes para viabilizar máquinas de fusão mais compactas. (Eni)
A parceria já ultrapassou a fase de investimento puramente experimental. Em setembro de 2025, Eni e CFS assinaram um acordo estimado em mais de US$ 1 bilhão para a compra futura de eletricidade produzida pela primeira usina comercial ARC da startup, prevista para Chesterfield County, no estado americano da Virgínia. O projeto é planejado para ter aproximadamente 400 megawatts de capacidade e a expectativa anunciada é conectá-lo à rede elétrica no início da década de 2030. (Eni)
Europa pode receber usina comercial no início dos anos 2040
A ambição da Eni não termina no projeto americano. Segundo o Financial Times, a companhia pretende desenvolver posteriormente uma instalação comercial de fusão na Europa, possivelmente no início da década de 2040 ou antes, dependendo do avanço tecnológico e do desempenho dos primeiros projetos. A lógica é que o sucesso da primeira planta comercial da CFS nos Estados Unidos abra caminho para a reprodução da tecnologia em outros mercados. (Financial Times)
A Eni também trabalha em outras frentes necessárias para transformar a fusão em uma atividade industrial. A companhia mantém colaboração com a UK Atomic Energy Authority para desenvolver tecnologias relacionadas ao ciclo de combustível, incluindo o gerenciamento do trítio. Além disso, participa de projetos de pesquisa na Itália e mantém iniciativas com instituições científicas voltadas para componentes fundamentais de futuros reatores. A estratégia mostra que a empresa procura dominar não apenas a produção de eletricidade, mas também partes da cadeia tecnológica que poderiam surgir ao redor das futuras usinas. (Eni)
Fusão ainda enfrenta enormes desafios antes de substituir petróleo e gás
Apesar das expectativas, a fusão nuclear ainda não pode ser tratada como uma substituta comercial disponível para petróleo, gás ou outras fontes de energia. A tecnologia procura reproduzir de maneira controlada um processo semelhante ao que alimenta as estrelas, fundindo núcleos atômicos dentro de um plasma extremamente quente. Embora experimentos tenham demonstrado avanços científicos importantes, nenhuma empresa provou até agora que consegue transformar esse processo em uma usina comercial competitiva funcionando continuamente na rede elétrica. (Financial Times)
Também existem dúvidas sobre custos, prazos de construção e capacidade de transformar protótipos em infraestrutura energética de grande escala. Especialistas ouvidos pelo Financial Times lembram que projetos nucleares historicamente enfrentam riscos de atrasos e estouros de orçamento. Por isso, os cronogramas anunciados pelas empresas devem ser entendidos como metas, e não como garantia de que a eletricidade produzida comercialmente por fusão estará disponível exatamente nessas datas. (Financial Times)
Ainda assim, o interesse de uma companhia historicamente ligada ao petróleo mostra como o setor energético está tentando antecipar possíveis transformações de longo prazo. Outras grandes empresas também fizeram investimentos no segmento, aumentando a competição por tecnologias capazes de produzir eletricidade de baixo carbono em grande escala. Para a Eni, participar agora significa tentar garantir conhecimento, propriedade tecnológica e posição comercial antes que a fusão eventualmente se torne uma indústria estabelecida. Se as atuais promessas tecnológicas forem cumpridas, a “refinaria do futuro” poderá ter muito menos relação com barris de petróleo e muito mais com plasma, supercondutores e isótopos de hidrogênio. (Financial Times)