Wander Aguilera Almeida, empresário do agronegócio, observa uma mudança essencial para o mercado: à medida que consumidores e compradores institucionais em diferentes partes do mundo passam a exigir informações cada vez mais detalhadas sobre a origem e as condições de produção dos alimentos que consomem, a rastreabilidade deixou de ser um diferencial competitivo e virou algo essencial. Antes restrito a poucos produtores, tornou-se exigência crescente dentro da cadeia do agronegócio brasileiro, capaz de determinar o acesso ou o bloqueio a determinados mercados consumidores de alto valor agregado.
Nesse contexto, entende-se essa nova tendência como parte de uma transformação mais ampla no perfil de exigências enfrentadas por produtores e intermediadores brasileiros, que precisam cada vez mais comprovar não apenas a qualidade técnica do grão comercializado, mas também a conformidade do processo produtivo com critérios ambientais, sociais e sanitários que vêm se tornando pré-requisito para negociações com compradores mais sofisticados no mercado nacional e internacional.
O que envolve a rastreabilidade de grãos?
A rastreabilidade de grãos consiste na capacidade de identificar e documentar a origem, as condições de produção e o percurso percorrido por determinado lote ao longo de toda a cadeia produtiva, desde o campo até o comprador final, em um registro detalhado que permite verificação objetiva de conformidade. Esse registro permite que compradores confirmem se a produção adquirida atende aos critérios exigidos em termos de conformidade ambiental. Isso diz respeito a aspectos como o uso de insumos e práticas de manejo adotadas na propriedade de origem, que influenciam fortemente na qualidade e característica daquele grão.
Conforme detalha Wander Aguilera Almeida, a implementação de sistemas de rastreabilidade exige organização documental da propriedade, com registros sistemáticos sobre cada etapa do ciclo produtivo. Do preparo do solo até a colheita e o armazenamento, tudo afeta o grão e tem que ser considerado. Esse tipo de processo, que demanda disciplina administrativa, nem sempre está presente em propriedades habituadas a uma gestão mais informal.
Segurança alimentar como dimensão complementar
A segurança alimentar, no contexto do agronegócio, refere-se à garantia de que os produtos agrícolas comercializados atendem a padrões sanitários e de qualidade que os tornam seguros para o consumo humano ou animal. Resíduos de agrotóxicos acima dos limites permitidos, contaminação por fungos ou outras substâncias nocivas representam riscos que comprometem tanto a saúde dos consumidores quanto a reputação comercial de produtores e intermediadores envolvidos em determinada cadeia produtiva. Num mercado tão baseado em relações como o agronegócio, um dano à reputação dessa forma pode ser extremamente prejudicial aos negócios.

Na avaliação de Wander Aguilera Almeida, intermediadores que acompanham de perto as práticas de manejo adotadas pelos produtores com quem trabalham tendem a se posicionar melhor diante de eventuais questionamentos de compradores sobre a conformidade do produto comercializado. Como eles têm um relacionamento próximo com a origem da produção permite maior conhecimento sobre as condições em que cada lote foi cultivado, manejado e colhido ao longo do ciclo produtivo. Isso inspira mais confiança dentro do mercado e mostra um conhecimento técnico relevante para vendas, permitindo ao produtor tirar o máximo daquela venda.
Impactos regulatórios sobre a rastreabilidade
Regulamentações nacionais e internacionais sobre rastreabilidade agrícola têm se tornado progressivamente mais rigorosas. Produtos destinados à exportação para mercados europeus, em especial, vêm passando por isso, pois eles exigem comprovação detalhada sobre a origem da produção e sua conformidade com critérios específicos de sustentabilidade e segurança alimentar. O descumprimento dessas exigências pode resultar no bloqueio de embarques e em prejuízos financeiros expressivos para toda a cadeia envolvida. Nesse contexto, mostra-se a importância do conhecimento das regulações vigentes, que estão sempre em atualização.
Wander Aguilera Almeida sinaliza que esse cenário regulatório crescentemente exigente representa desafio relevante para parcela da produção brasileira que ainda opera sem sistemas formais de rastreabilidade. Isso demanda um investimento em organização documental e em ferramentas tecnológicas que facilitem o registro sistemático das informações exigidas ao longo de todo o processo produtivo. Por isso, é essencial que produtores e intermediadores tratem o tema com a urgência que ele efetivamente merece.
Tecnologia como facilitadora da rastreabilidade
Ferramentas digitais voltadas ao registro e à gestão de informações agrícolas têm contribuído para reduzir o custo e a complexidade associados à implementação de sistemas de rastreabilidade em propriedades rurais de diferentes portes. Aplicativos que permitem o registro fotográfico georreferenciado de diferentes etapas do ciclo produtivo, por exemplo, facilitam a documentação necessária sem exigir estruturas administrativas complexas.
Esse tipo de ferramenta apresenta um investimento de baixo custo relativo em comparação ao potencial de ampliação do acesso comercial proporcionado pela capacidade de comprovar a conformidade de toda a cadeia produtiva até o comprador final, o que aumenta sua relevância.
Rastreabilidade como construção de reputação comercial
Além de atender a exigências regulatórias e de mercado, a rastreabilidade contribui para a construção de reputação comercial de médio e longo prazo, associando determinadas propriedades ou regiões produtoras à consistência de qualidade e à conformidade ambiental que compradores mais exigentes cada vez mais valorizam em suas decisões de fornecimento.
Wander Aguilera Almeida nota que produtores que investem sistematicamente em rastreabilidade tendem a construir ao longo do tempo um ativo reputacional relevante, capaz de se traduzir em acesso preferencial a compradores mais qualificados e em condições comerciais diferenciadas, especialmente em mercados nos quais a comprovação de origem e conformidade já funciona como critério eliminatório em processos de seleção de fornecedores, tendência que deve se intensificar nos próximos anos.