Pesquisadores da Coppe/UFRJ desenvolvem três projetos que usam inteligência artificial para reduzir a dependência de tecnologia estrangeira na indústria offshore.
A indústria brasileira de petróleo e gás vive um momento de aposta forte em tecnologia nacional para ganhar eficiência e reduzir a dependência de soluções importadas. Pesquisadores da Unidade Embrapii Coppe/UFRJ desenvolvem, em parceria com Petrobras, Shell e Repsol Sinopec Brasil, três projetos que usam inteligência artificial para modernizar etapas críticas da cadeia produtiva offshore. As iniciativas vão da criação de réplicas virtuais de plataformas de petróleo à fabricação de peças metálicas por impressão 3D, passando por um sistema de drones capaz de detectar vazamentos de óleo no mar em tempo real. Os projetos já começam a sair do laboratório: um componente impresso em 3D já está instalado e em operação no Campo de Peregrino, no Rio de Janeiro, enquanto o sistema de drones foi validado na Baía de Guanabara. A pergunta que fica é: como essas tecnologias, ainda pouco conhecidas do público, podem afetar a segurança, o custo e a soberania tecnológica do setor de gás e petróleo no Brasil?
Gêmeos digitais para prever o comportamento das plataformas
O primeiro projeto, chamado 65 LabOceano, foi desenvolvido em parceria com a Petrobras e utiliza inteligência artificial combinada com realidade virtual para criar o que os pesquisadores chamam de gêmeos digitais, réplicas virtuais em três dimensões de plataformas de petróleo. A tecnologia reúne os dados gerados em ensaios com modelos reduzidos das estruturas, testados em tanques que simulam as condições reais do oceano, e transforma essas informações em uma base estruturada para alimentar sistemas de apoio à decisão.
Segundo Paulo de Tarso Themistocles Esperança, coordenador do projeto, a inteligência artificial será treinada para interpretar esse grande volume de dados, identificar padrões de comportamento e ajudar na elaboração de relatórios técnicos e novos projetos de engenharia. Na prática, os pesquisadores passam a acessar instantaneamente todos os dados coletados durante os testes, sem depender apenas da análise manual que era feita até então.
Esperança destaca que a iniciativa representa uma mudança de lógica para o setor, já que o tanque de testes deixa de ser apenas um ambiente de validação experimental e passa a funcionar como fonte contínua de dados para modelos digitais e sistemas de inteligência operacional aplicados a operações reais offshore. O projeto ainda está em fase de desenvolvimento e validação, mas a expectativa dos pesquisadores é de que a tecnologia comece a ser aplicada em projetos piloto no curto prazo.
Impressão 3D reduz dependência de peças importadas
O segundo projeto, batizado de 41 LntSold e desenvolvido junto com a Shell, aposta na impressão 3D metálica para fabricar componentes usados em equipamentos submarinos da indústria de petróleo e gás. Diferentemente das impressoras 3D convencionais, a tecnologia utiliza arames metálicos e soldagem por arco elétrico para construir as peças camada por camada, um processo que substitui métodos tradicionais mais lentos e com maior desperdício de material.
A inteligência artificial entra nesse processo monitorando a fabricação em tempo real, analisando dados de sensores para identificar desvios de qualidade e ajustar automaticamente os parâmetros de produção. João da Cruz Payão Folho, coordenador da iniciativa, explica que essa manufatura aditiva permite reduzir o tempo de fabricação, produzir componentes sob demanda e diminuir a dependência de importações, o que se traduz em menor custo operacional e maior disponibilidade dos equipamentos no campo.
Com a segunda etapa do projeto já concluída e um componente instalado e funcionando no Campo de Peregrino, no Rio de Janeiro, a expectativa dos pesquisadores agora é acelerar a adoção comercial da tecnologia em outras operações da indústria offshore brasileira.
Drones que identificam vazamentos de óleo no mar
O terceiro projeto, chamado Ariel, foi desenvolvido em parceria com a Repsol Sinopec Brasil e cria um sistema robótico para detectar vazamentos de óleo em alto mar. A tecnologia combina drones, veículos autônomos de superfície, sensores e imagens remotas, analisados por algoritmos de inteligência artificial capazes de monitorar o mar continuamente, incorporando ainda dados meteorológicos e oceanográficos, como vento, temperatura e correntes marítimas, para aumentar a precisão da detecção.
Alessandro Jacoud Peixoto, coordenador do projeto, explica que a identificação de vazamentos dependia antes de inspeção humana ou de técnicas mais simples de visão computacional, baseadas em regras fixas de cor e textura. Com redes neurais treinadas em bancos de dados reais, o sistema passa a reconhecer automaticamente as manchas de óleo com mais precisão, reduzindo tanto os alertas falsos quanto os casos que passariam despercebidos.
Validado na Baía de Guanabara, o sistema Ariel ainda depende de etapas adicionais antes de uma adoção em larga escala, como validação operacional mais ampla, integração com as rotinas industriais das empresas, certificação e comprovação de confiabilidade em condições reais de campo ao longo do tempo.
Os três projetos, mesmo em estágios diferentes de maturidade, mostram um movimento consistente da indústria de petróleo e gás no Brasil em direção à tecnologia nacional aplicada a problemas concretos do dia a dia offshore, da segurança de plataformas à resposta a acidentes ambientais. Para o setor, o ganho não é apenas de eficiência operacional, mas também de menor exposição a fornecedores estrangeiros em áreas consideradas estratégicas, como simulação de dados, manufatura de componentes críticos e monitoramento ambiental em tempo real.
Fonte consultada: Computer Weekly Brasil