Felipe Rassi, especialista em créditos estressados, observa que o mercado brasileiro de NPL deixou de ser um espaço restrito a players domésticos e passou a atrair, de forma crescente, capital de fundos internacionais especializados em ativos distressed. Esse movimento não é acidental: reflete tanto o tamanho crescente do estoque de crédito inadimplido no Brasil quanto a percepção, por parte desses investidores globais, de que o país oferece oportunidades de retorno ajustado ao risco que já não são tão abundantes em mercados mais maduros.
Esse interesse internacional trouxe consigo mudanças relevantes na forma como as operações são estruturadas, precificadas e negociadas. Fundos estrangeiros costumam operar com metodologias mais sofisticadas de análise de risco, mas também enfrentam desafios específicos ao lidar com as particularidades jurídicas e regulatórias do mercado brasileiro. A seguir, veja por que o Brasil virou destino de capital distressed global e o que isso muda na disputa por carteiras de qualidade.
Por que o Brasil se tornou atrativo para a capital distressed internacional?
O volume expressivo de crédito inadimplido gerado por ciclos econômicos recentes, combinado com deságios historicamente elevados em relação a mercados mais maduros, tornou o Brasil um destino natural para fundos internacionais especializados em NPL. Segundo a leitura de Felipe Rassi, especialista jurídico no mercado de NPL, esse interesse também reflete uma busca por diversificação geográfica por parte de investidores que já esgotaram parte das oportunidades mais atrativas em mercados como Estados Unidos e Europa, onde a competição por ativos distressed é mais intensa e os retornos, proporcionalmente, mais comprimidos.
Esse cenário criou um fluxo de capital que, embora ainda modesto em comparação a mercados como o italiano ou o espanhol, tem crescido de forma consistente, trazendo consigo não apenas recursos financeiros, mas também práticas de análise e estruturação que gradualmente influenciam o mercado doméstico como um todo.
Como os fundos internacionais lidam com as particularidades jurídicas locais?
Um dos maiores desafios enfrentados por fundos internacionais ao operar no Brasil é a adaptação às especificidades do sistema jurídico local, especialmente no que diz respeito ao tempo de execução judicial e às exigências documentais para comprovação de cadeia de titularidade. Como aponta Felipe Rassi no campo da recuperação de ativos, investidores que tentam replicar diretamente metodologias desenvolvidas para mercados como o americano ou o europeu, sem ajustar essas metodologias à realidade processual brasileira, costumam subestimar significativamente o tempo necessário para recuperação.
Os fundos internacionais costumam se associar a gestores e escritórios jurídicos locais especializados, que conhecem as particularidades processuais brasileiras, e ajustam seus modelos de retorno esperado para refletir prazos de execução judicial geralmente mais longos do que em mercados mais maduros.

Por isso, a maioria dos fundos internacionais que atuam no Brasil opera em parceria com gestores locais, que oferecem o conhecimento jurídico e operacional necessário para navegar esse ambiente regulatório específico, funcionando como ponte entre o capital estrangeiro e a execução prática das estratégias de recuperação.
O que esse capital internacional muda na dinâmica de precificação?
A entrada de fundos internacionais aumentou a competição por carteiras de qualidade no mercado brasileiro, o que tem efeito direto sobre a precificação das melhores oportunidades disponíveis. Carteiras com garantias sólidas e documentação bem estruturada, que antes eram negociadas com deságios mais expressivos por falta de compradores dispostos a pagar preços mais próximos do valor real, passaram a atrair ofertas mais competitivas, à medida que mais capital qualificado disputa esse tipo de ativo.
Felipe Rassi, analista de mercado de ativos estressados, reflete que esse aumento de competição tende a beneficiar cedentes, que conseguem negociar condições mais favoráveis para suas carteiras de melhor qualidade, mas também exige que compradores domésticos aprimorem suas próprias metodologias de análise para permanecerem competitivos diante de players internacionais mais sofisticados.
Os riscos específicos que o capital estrangeiro precisa considerar
Operar em um mercado como o brasileiro exige que fundos internacionais considerem riscos que vão além da qualidade intrínseca das carteiras adquiridas. Volatilidade cambial, mudanças regulatórias e a própria dinâmica política e econômica do país influenciam diretamente o retorno esperado de qualquer operação de longo prazo. Esses fatores macro, somados às particularidades do sistema jurídico local, compõem uma camada adicional de complexidade que investidores domésticos, mais familiarizados com esse ambiente, não precisam avaliar com a mesma intensidade.
Esse conjunto de riscos específicos explica por que fundos internacionais costumam exigir prêmios de retorno mais elevados para operar no Brasil, em comparação com mercados domésticos de origem, refletindo não apenas o risco de crédito das carteiras, mas todo o conjunto de incertezas adicionais associadas a operar em um mercado emergente com características jurídicas próprias.
O que essa presença internacional revela sobre a maturidade do mercado brasileiro?
A crescente presença de capital internacional no mercado brasileiro de NPL é, ao mesmo tempo, sinal de maturidade e fator de aceleração dessa mesma maturidade. Felipe Rassi reflete que a chegada desses investidores, com suas metodologias mais sofisticadas e seus padrões mais rígidos de due diligence, funciona como um catalisador para que práticas mais avançadas de análise e estruturação se disseminem também entre players domésticos.
Esse processo de amadurecimento tende a continuar enquanto o volume de crédito inadimplido no Brasil permanecer relevante e enquanto o país mantiver deságios competitivos em relação a outros mercados. No fim, compreender essa dinâmica é essencial para qualquer participante desse mercado que pretenda antecipar como a competição por ativos distressed deve evoluir nos próximos ciclos.